O estudo da anatomia parece inseparável dos atlas em que nos apoiamos desde o início do curso. Neles, a capacidade artística é indestrinçável da clareza e elegância com que nos mostram os detalhes do corpo humano. Debruçarmo-nos sobre as suas figuras parece a continuação duma tradição indispensável à aprendizagem da medicina.

No entanto, na Europa o estudo da anatomia por ilustrações começou apenas no século XVI. Durante cerca de 1400 anos, os textos descritivos de Galeno de Pérgamo (129-216/217 d.C.) foram a obra de referência na formação de médicos. A sua obra não continha ilustrações, e as descrições eram baseadas na dissecção de pequenos primatas não humanos e outros mamíferos, e na observação de feridas de gladiadores, já que a dissecção de cadáveres humanos não era aceite na época de vida de Galeno.

A primeira dissecção de humanos em 1700 anos foi realizada por Mondino de Liuzzi (1275-1326), que redigiu o texto Anathomia Mondini a partir das suas observações sem, no entanto, as complementar com imagens. A sua obra manteve-se influente e foi publicada novamente aquando do surgimento da imprensa. Talvez por não ter contradito a obra de Galeno, não foi suficiente para se sobrepor a esta.

 

Ilustração de Guido de Vigevano
Ilustração de Guido de Vigevano

 

Um aluno de Liuzzi, Guido de Vigevano (1280-1349), foi o primeiro a publicar ilustrações anatómicas; no caso, tratava-se de estruturas neuroanatómicas e técnicas de disseção das mesmas. Durante a idade média as poucas ilustrações anatómicas que iam surgindo eram ainda rudimentares.

O florescimento das artes durante o Renascimento repercutiu-se no desenvolvimento da representação do corpo humano, numa maior abertura à realização de dissecções de cadáveres de humanos e no surgimento de parcerias entre anatomistas e artistas de renome.

Entre a sua obra vasta demais para ser aqui abrangida, Leonardo da Vinci elaborou ilustrações anatómicas baseadas na observação da dissecção de 30 cadáveres (incluindo tanto homens como mulheres de várias idades). Estes desenhos de grande detalhe anatómico e técnico não foram conhecidos até ao século XVIII, razão pela qual não chegaram a ganhar influência no ensino médico.

 

De Humani Corporis Fabrica
Ilustração em De Humani Corporis Fabrica

 

Neste período outras ilustrações foram surgindo, frequentemente cruzando a representação do corpo com a visão artística do pintor contratado. Neste contexto surgiu o primeiro atlas de anatomia que se tornaria numa ferramenta de estudo popularizada, publicado por Andreas Vesalius (1514-1564). Nascido em Bruxelas e formado em medicina em Pádua, em Itália, Vesalius trabalhou como professor de anatomia nessa mesma universidade enquanto trabalhava na obra que veio a publicar em 1573, De Humani Corporis Fabrica. As ilustrações foram preparadas pelo artista Stefan van Calcar (1499-1546), aluno de Ticiano.

Outros anatomistas vieram a associar-se a artistas menos conhecidos e a produzir atlas mais dedicados a tornar a ilustração em anatomia mais detalhada e focada na compreensão do estudante e do médico, ao invés de construir uma obra de arte por si só, com os corpos ou os esqueletos em posições e cenários dramáticos. Entre estes anatomistas inclui-se Fabricius ab Acquapendente (1533-1619) e Johann Wesling (ou Veslingius), também da Universidade de Pádua. Fabricius publicou a coleção de ilustrações Tabulae Pictae em 1600 seguindo estes princípios. Entre os seus alunos inclui-se William Harvey, que viria a descrever o sistema circulatório. Embora as ilustrações de Fabricius tenham sido de grande influência nos seus alunos, ao longo de mais de 50 anos de carreira, foram perdidas após a sua morte e só recuperadas em 1909, o que limitou a sua influência.

Ao longo dos séculos XVII e XVII continuaram a surgir iniciativas que apostavam ora mais no detalhe anatómico e na utilidade das ilustrações, ora no seu caráter mais puramente artístico. No final do séc. XVII surgiram os primeiros trabalhos em que as ilustrações eram elaboradas pelos próprios médicos anatomistas, nomeadamente nos trabalhos dos irmãos escoceses John Bell (1763-1820) e Sir Charles Bell (1774-1804).

 

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Gray’s Anatomy, 20ª edição (1918)

 

No séc. XIX o anatomista e cirurgião inglês Henry Gray (1827-1861) publicou a sua lendária obra Anatomy: Descriptive and Surgical, hoje em dia publicada como Gray’s Anatomy, que foi editada pela primeira vez em 1858, com 363 ilustrações. O detalhe minucioso e a clareza deste permitiu que continue a ser uma referência atualmente, em boa parte devido à qualidade das ilustrações, feitas pela mão de Henry Vandyke Carter, amigo de Gray e também ele anatomista.

Algumas décadas depois iniciou-se a profissionalização da profissão de ilustração anatómica, quando a Escola de Medicina John Hopkins contratou Max Brodel (1870-1971), um jovem artista de Leipzig, para trabalhar em ilustração médica. Em 1911 foi criado Departamento de Artes Aplicadas à Medicina nessa mesma escola, o primeiro departamento académico com este propósito, dirigido por Brodel.

Esta profissionalização permitiu que Frank H. Netter (1906-1991), um cirurgião americano que queria também ser artista, deixasse de praticar clínica e se dedicasse à ilustração a tempo inteiro, colhendo trabalho inicialmente em empresas farmacêuticas. As suas ilustrações foram populares desde cedo, e foram publicadas em coletâneas, a maior das quais foi o Netter’s Atlas of Human Anatomy, publicado pela primeira vez em 1989.

Desde então, a aprendizagem da anatomia foi influenciada pelos novos métodos de imagem diagnóstica que surgiram (radiografias, tomografias axiais computorizadas, ressonância magnética, ecografia), e pelo desenvolvimento de softwares que permitem a representação do corpo humano em grande detalhe, em 2D ou 3D, com interatividade. Este desenvolvimento continuará dirigido à clareza e à utilidade, mas continua a ser precisa a aptidão e visão artística para o desenho destes modelos e ferramentas.

 

Sofia Leal Santos, 2º ano MD/PhD

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