harmony-1229893_1920

Era uma vez um homem que tinha dores de cabeça. Não havendo ainda Paracetamol à venda e sendo homem que se preze, deixou-se andar. Vai que não vai, em conversa com a mulher, confessa-lhe o safado sintoma, e ela, como mulher que se preze, indagou minuciosamente os detalhes do mistério, chegando à lógica e compreensível conclusão de que a solução era abrir-lhe um buraco na cabeça. Alguns ficarão incrédulos ao ler tal frase e cederão à tentação de prever que o homem não terá um final feliz mas, enganem-se os céticos, o certo é que pegou na faca de pedra que usavam para retirar a pele das presas (que essas sim, tiveram um final infeliz!), lavou-a até o pó e o sangue seco serem removidos pela água do rio e a pedra reluzir ao Sol (não sabia ela por que o fez, apenas uma leve ideia que lhe toldava o pensamento a fez agir por este método) e com certeira precisão, após três golpes saiu o conteúdo gelatinoso manhoso que finalmente, após muito teimar, viu a luz do dia. Não nos preocupemos com pormenores anestésicos e anatómicos, até porque a magia se perpetua pelo que fica por explicar e não quero perder este majestoso poder, assumamos apenas que a dor que o homem sentiu não ultrapassou à que poderá ser quando cai uma pinga de limão numa ferida de papel num dedo, o que, a meu ver, já é sofrimento que chegue. Com um cuidado ternurento, aquele que só existe entre pessoas que partilham a cama e o coração, colocou-lhe por cima da ferida uma folha de plátano que os vigiava do chão e se voluntariou prontamente para ajudar a prolongar o amor entre aquele homem e aquela mulher. Não se preocupem, a mulher lavou também a folha antes de a pousar na incisão cirúrgica, não que ela lhe chamasse isso ou que lha tivessem ensinado. Três dias após este peculiar episódio, nunca descrito em livros da especialidade histórica, o cérebro do homem aborreceu-se do mundo que viu cá fora e decidiu voltar à sua residência habitual. Posto isto, a mulher colou-lhe um pedaço de osso de ovelha que moldou à forma do crânio aberto do homem, com uma resina que retirou de uma conífera. Ignoremos agora os mecanismos da imunocompatibilidade de transplantes, afinal queremos que este homem sobreviva e que a magia não se dissipe. O certo é que, depois de um susto em que o homem não falava e não reconhecia o cheiro da sua mulher, eis que se ergue do seu leito e abraçando a sua salvadora encostando o peito às costas dela e apertando os braços na cintura dela, lhe diz que tem fome. A quem valer este final, melhor, senão asseguro quem ainda não estiver convencido deste prodígio que a função eretora do órgão vital do homem não ficou mazelada com este acontecimento, tendo sido utilizada periodicamente para o fim que todos sabemos qual.

Quer esta história contar, visto que não subsiste qualquer registo, nem escrito, nem desenhado, nem cantado, que esta mulher veio a ser, sem saber, a primeira médica do mundo.

A Medicina é a arte de curar, quem o diz é a sua etimologia latina, e devemos muito respeito aos idiomas antigos, pelo que não me atrevo a alterar o significado desta sublime palavra. Quis explorar o conceito da arte, em que, os melhores artistas, para além da cognição, são detentores de uma virtude por muitos ignorada, por outros abafada, mas fundamental na compreensão do que fazem: a magia. Os médicos são o epítome de dois mundos opostos que se fundem, a evidência e a arte. O equilíbrio perfeito entre estas duas balanças é a utopia eterna da Medicina.

 

Rosélia Lima, 5º ano

Anúncios