A corrente edição do HajaSaúde! pretende explorar a componente artística na Medicina, assim como as diversas formas que pode assumir para se expressar como tal. Neste segmento, em particular, quero expor o caminho da literatura e exemplificar com grandes nomes portugueses, primados pela conjugação da criatividade na escrivaninha e no consultório.

 

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Miguel Torga – Estudo por Carlos Botelho na comemoração do seu 100º aniversário

 

Adolfo Correia da Rocha nasceu em 1907, em Vila Real, no seio de uma família humilde. Durante a sua infância e adolescência trabalhou como porteiro na casa de familiares mais abastados e estudou no seminário de Lamego, tendo desistido após um ano. Emigrou para o Brasil em 1920, onde ficou em casa de um tio que, ao aperceber-se da sua inteligência, decidiu pagar-lhe os estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Escreveu diversas publicações durante a sua licenciatura e fundou, inclusive, a sua própria revista, Sinal, em conjunto com um amigo. Terminou os estudos em 1933, e começou a exerceu Medicina em Trás-os-Montes, dedicando-se em simultâneo à escrita. Das suas obras destacam-se os títulos: Bichos (1940), O Senhor Ventura (1943) e Novos Contos da Montanha (1944), somando mais de 50 livros publicados.

Utilizou o pseudónimo Miguel Torga pela primeira vez em 1934, na obra A Terceira Voz. Escolheu “Miguel” em homenagem a Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno, e “Torga” por ser uma planta brava da montanha. De facto, múltiplos relatos descrevem-no como homem revoltado e rebelde, e as suas obras refletem fielmente estes traços. Para além das suas origens campinas e experiência médica, a escrita revela um inconformismo para com os abusos de poder e as injustiças. Inclusive, durante os seus tempos de estudante, era um crítico ávido da praxe e demais tradições académicas. Na semelhança de José Saramago e a própria Medicina, as obras de Miguel Torga dignificam o homem comum, limitado à miséria e à desgraça, exaltando a sua imposta mortalidade.

Em propósito momento, Adolfo Rocha confrontou-se com a sua própria mortalidade em 1995, padecente de cancro.

 

Rosélia Lima, 5º ano

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