João Barbosa Martins, 6º ano

O mundo, tal qual o conhecemos, tem vindo a mutar e, se parar é morrer, certamente que a mudança se sobrepõe ao finamento, perdurando para as futuras gerações, disfrutando e imortalizando das melhores conexões neuronais que a humanidade alguma vez teve.

Certamente que concordarão comigo quando afirmo que também a sexualidade tem vindo a mudar ao longo das transpostas gerações, para melhor ou para pior, atirariam imediatamente os castos em oposição aos libertinos. Não obstante, a todo este romper de tradições seculares e à eloquência com que os porquês têm vindo a, cabalisticamente, envolver-se em fecundas luxúrias com as respostas, também a medicina tem mudado. O que diriam os obsoletos físicos e cirurgiões barbeiros sobre o acesso a peças anatómicas ou cadavéricas que os alunos de medicina têm hoje? O que diriam os conservadores e inquisitórios que reviram e recusaram a publicação, remetendo para a fogueada e purificatória revista, tantos cientistas que se limitavam a melhor tentar entender a beleza oculta neste mundo perdido?

Entenda-se pois que, nunca coube à anatomia, descrever substâncias amorfas e incertas como a alma humana, nem tão pouco os fundamentos da sua perdição ou vendição à carne. As primeiras descrições anatómicas, pelo menos as não palpatórias, como as já adestradas, mas não descritas por Adão e Eva, declinam do antigo Egito, cerca do séc. XVI a.C., durante as mumificações. Seguiram-se escolas como a Grega, com nomes relevantes como Aristóteles, com descrições maioritariamente baseadas em dissecções animais. Desta altura, em Alexandria, datam também as primeiras dissecções em condenados e criminosos humanos, alguns ainda vivos. Finalmente, surgiu Galeno, o príncipe dos anatomistas, que compilou o que se sabia até então, tendo os seus escritos perdurado no estudo e no ensino médico até longa data. Nesta época, a anatomia era ensinada, começando cada pergunta com “mestre” e cada resposta terminada com “tendes de ler mais aprendiz” e a bibliografia era decorada de boca em boca. Estávamos em meados do séc. XI e a curiosidade expande-se para as arábias, onde Avicenna, o persa, edificou o “Cânone da Medicina”, efetuando detalhadas descrições anatómicas, respeitando sempre o pudor que a religião obrigava, instruindo inúmeros clínicos. As trevas banhavam o conhecimento anatómico, até que, já na época renascentista, grandes nomes como da Vinci ou Vesalius acenderam pequenas luzes que, rapidamente iluminaram aqueles tantos pormenores que hoje maldizem os estudantes de medicina. Muitos se seguiram, felizmente, mas… vamos ao que mais interessa.

Só muito mais tarde se sentiu necessidade de deixar de priorizar órgãos secundários, como a circulação pulmonar e cardíaca para se prezar a nobre genitália, pelo menos na opinião, nada enviesada, a que rubrica respeita. Senão vejamos, em 1620, o estudante de medicina escocês John Moir, refere, sumariamente, que ter em consideração os membros genitais é um assunto delicado, que não deve ser revelado, sobretudo aos jovens para não incendiar a vergonha, o pecado e a prevaricação. Assim, retrocedendo e paralelizando o anterior relato histórico, tornemo-lo, impróprio e impuro, pecando num olhar.

Desde a antiguidade até ao Renascimento que os órgãos reprodutores masculinos e femininos eram descritos como sendo estruturas homólogas, contudo, desiguais. Apesar de serem narrados como mais pequenos, os femininos eram igualmente apelidados de testículos, tal se pensava produzirem substâncias importantes para a geração. Ensinava Aristóteles, no séc. IV a.C. que o homem contribuía para a prole com algo sagrado e a mulher com algo grosseiro e rude, tal era a displicência que esta gozava socialmente. Mais tarde, Galeno e Hipócrates referiram, que havia duas sementes que diferiam ligeiramente na sua contribuição, mas que ambos eram sémen. A evolução destas diferentes ideias, manteve-se durante todo o ensino médico, na idade média, assombrada pelo constrangimento e pelo debate, aumentando gradualmente de interesse. De salientar, que reiterou textualmente Avicenna, abençoado pelo profeta, que o processo de genesis humana era similar à manufatura do queijo, com maior relevância para o condimento masculino. Também, erradamente da Vinci errou ao descrever que a força e a firmeza peniana assentavam no osso púbico e outros da mesma época, que o esperma era sangue filtrado e purificado. Vivia-se o Renascimento, marcando o ponto de viragem, em que a medicina inspira o artista e tinge as telas, o que rapidamente foi reprimido pela sociedade, com a proibição, no séc. XVI de que, em qualquer livro de medicina aparecesse um jovem despido, o que perdurou até ao séc. XVII. Deste jeito, a única forma que os corpos podiam ser representados nos manuais, seria sobre a figura de Adão com a parra e de Eva com a mão sobre a púbis. Caso se tratasse de uma peça cadavérica ilustrada em cima da mesa de dissecação, o sexo teria de estar recoberto, quer com um pano, ceroulas, ou por vezes até flores. Era expressamente proibido para um homem médico assistir a um parto, por este se reservar às parteiras, citando-se um cirurgião em Hamburgo que foi executado em 1522 por ter tido a ousadia de o fazer, mascarado. Em 1559, o anatomista Realdo Colombo refere ter descoberto, não as Américas, mas o clitóris e no final desse século Gabielle Fallopia descreve o que veio a imortalizá-lo. Colombo incendiou, obviamente, as ostes, ao sugerir assim que a mulher teria prazer na cópula, algo ultrajoso e infame. Finalmente, em 1620 John Moir, o supracitado conservador, atribuiu enorme importância ao útero, chamando-lhe mesmo a matriz da vida, adocicando a ciência com a beleza da poesia do momento. Conspurcando-a de seguida, quando fez crer quem o leu e o decorou, ser o útero o responsável por venenos e doenças como a histeria. Mas não foi o único, outros descreveram-no de uma forma, relativamente pouco simpática, mas prática, como o mestre Nicolaus, que o relata sendo hepta-compartimentado, tal como os dias da semana (imagine-se Franck Netter a, engenhosamente, ilustrar isto). Outros descreviam-lhe duas divisões, tal como em alguns animais, uma destinada a conceber os rapazes e outra as raparigas e que correspondiam, respetivamente, a cada um dos seios.

Em Portugal, não existem grandes referências sobre esta evolução, salientando apenas o pioneiro na bibliografia Ginecológica Portuguesa, Rodrigo de Castro, com o livro A Medicina Geral da Mulher no séc. XVI. O primeiro livro sobre sexualidade surgiu em 1911, com intuito de promover a higiene e a prevenção de doenças venéreas no povo ordeiro e exemplar, sempre com o vinco na lombada, da superioridade masculina e dos ditos bons costumes.

E assim, foi evoluindo o ensino da sexualidade ao sabor de crenças religiosas, politicas, sociais, filosóficas e metafisicas até aos nossos dias. Enfim, durante anos se manteve, no murmúrio dos retrógrados e na doutrina do silêncio, a preclara frase: “Nada do que é humano é estranho ao Médico”, com todas as desperdiçadas vidas que tal desdém acarretou.

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