Pedro Peixoto, 1º ano MD/PhD

Nos últimos 30 anos, nunca existiram tantos estudantes de medicina em Portugal, número que hoje se cifra em cerca de 12000 alunos. Por outro lado, continua a ser um dos cursos que, indiscutivelmente, gera maior apetência por novos alunos, como é visível pelas classificações de entrada no mesmo. Invariavelmente, desde que os atuais moldes de acesso ao ensino superior foram estabelecidos, o curso de medicina (ou as variantes mais recentes na versão de Mestrado Integrado) aufere dos lugares cimeiros no que toca à classificação de entrada; com a ressalva de que requer três provas de ingresso à entrada.

O que leva tantos alunos a ingressar num curso, cujas previsões de empregabilidade começam a mostrar sinais de exaustão? No último concurso nacional de acesso à formação específica ficaram já excluídos 168 alunos, não contando os que desistiram à priori. Acrescenta-se que, Portugal é já o 9º país com maior rácio médico/doente da OCDE. Mais ainda, segundo números apresentados pela Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), as necessidades do país no que toca a número de médicos formados anualmente cifra-se em 1175, no entanto estão a ser formados cerca de 1900 anualmente, descontando os que proveem do estrangeiro.

Mais, estamos num ponto em que a qualidade do curso, nas diversas instituições do país, pode efetivamente ser questionada. Por um lado, o rácio tutor/aluno começa a lançar sérias dúvidas sobre a efetiva aprendizagem clinica dos alunos; se, na Universidade do Minho esse rácio se estabelece em torno dos 3,79 alunos/tutor, na média dos 3º/4º e 5º anos (1,17 no 6ºano), na Universidade de Coimbra, esse rácio atinge valores respetivamente de 18.5 e 2.0 alunos/tutor. A acompanhar estes dados podemos juntar os que referem à satisfação global dos estudantes; invariavelmente, são as escolas mais pequenas, com menor número de alunos que apresentam valores mais elevados de satisfação global (escala de 0-5). Exemplificando, na Universidade do Minho situa-se em 4.528, ao passo que na Universidade de Coimbra se situa em 3.511.

Não são só estes números, relativos a empregabilidade e acompanhamento no ensino, que deixam dúvidas acerca da popularidade do curso de medicina em Portugal. Podemos falar da famigerada Prova Nacional de Seriação (PNS) – vulgo Harrison -, cujo modelo é absolutamente arcaico, baseando-se na mera memorização de um conjunto de dados, de cariz clínico questionável; a preparação para esta prova acaba por minar, e muito, o que os alunos conseguem retirar do seu 6º ano. Mais, em escolas como a da Universidade do Minho, onde até são feitos esforços para assegurar a presença continuada dos alunos em contexto clínico, essa oportunidade acaba por ser perdida, muito devido ao stress que a preparação para esta prova condiciona (e aqui questiono como é possível a prática clínica ser menos importante que uma prova). A verdade é que, face às condições atuais de acesso à especialidade, muito dificilmente será esta situação diferente.

Assim, o panorama atual é um em que assistimos a uma possível diminuição geral da qualidade do ensino, desprestigiando a profissão, e de uma grande desconexão entre os vários níveis de formação, necessários para completar a formação pré e pós-graduada.

Por motivos políticos, é difícil pensar numa redução do numerus clausus. Mais, é difícil explicar à população geral os malefícios que o desemprego médico condiciona (podemos começar pelo efeito das empresas de trabalho temporário na qualidade dos serviços – o que acontece à relação médico/doente? Quem é responsável pelos erros clínicos? Quem assegura a continuidade dos cuidados prestados?). Por outro lado, é difícil pensar num aumento das capacidades formativas pós-graduadas quando existe um número elevado de clínicos em idade próxima da aposentação, um número grande de recém-formados, mas um reduzido número de especialistas capazes de tutorear formação pós-graduada de qualidade, face às necessidades.

Tendo tudo isto em conta, resta-nos lutar pela profissionalização do 6º ano, de forma a que consigamos ser clínicos autónomos no final do curso (como acontece em muitas outras profissões), e, para tal, é necessário mudar vários parâmetros de qualidade, dando primazia à descontextualizada PNS e à necessidade de a reformular, no sentido de abordar a resolução de casos clínicos; aumentar o rácio tutor/aluno nos anos clínicos e a autonomia dos estudantes em contexto clínico.

Quero terminar esta crónica para lembrar aos leitores que, estar num Mestrado Integrado em Medicina, não significa que venham a ser clínicos. Cada vez mais devemos pensar neste curso como uma ferramenta formativa para ser usada noutros contextos, como a investigação científica básica, a cooperação com a indústria farmacêutica e a que nos liga à tecnologia de contexto clínico; gestão; ensino e muitos outros que podem fugir completamente à prática médica. Talvez por estas perspetivas, aliadas à curiosidade que suscita e ao interesse das matérias lecionadas é que o curso de medicina continua, e certamente continuará, a ser um dos mais apetecíveis do leque de cursos disponíveis no ensino superior.

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